“Cachoeira de sangue” revela o que está sob o gelo da Antártida
Um dos fenômenos mais intrigantes do continente gelado acaba de ganhar uma nova explicação científica. As chamadas Blood Falls( cachoeiras de sangue), na Antártida, não são apenas uma mancha superficial no gelo, mas sim um sinal visível de processos complexos que ocorrem nas profundezas da geleira. As informações são da Antarctic Science.
O que são as cachoeiras de sangue da Antártida
As Blood Falls consistem em um fluxo de água hipersalina rica em ferro que emerge debaixo da geleira Taylor, localizada nos Vales Secos de McMurdo. A coloração vermelha intensa surge quando essa água, que não contém oxigênio, entra em contato com o ar, provocando a oxidação do ferro, um processo semelhante ao da ferrugem.
Agora, cientistas conseguiram ligar um súbito aumento desse fluxo avermelhado a uma queda mensurável na superfície da geleira acima. A descoberta reforça que o fenômeno está diretamente conectado a mudanças de pressão e ao movimento de água escondida sob o gelo.
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Imagens em time-lapse das Cataratas de Sangue na Antártida.
O registro mais detalhado ocorreu em setembro de 2018, quando sensores instalados na geleira detectaram uma leve queda enquanto câmeras captavam o início do fluxo vermelho. O geocientista Peter T. Doran, da Universidade Estadual da Louisiana (LSU), correlacionou os dados e concluiu que a liberação da água estava associada à redução da pressão interna.
Ao longo de semanas, os pesquisadores observaram que a superfície da geleira afundou e depois voltou ao nível original, sugerindo um pulso temporário de drenagem abaixo do gelo. Apesar disso, a cobertura limitada de sensores ainda impede entender com precisão a frequência desses eventos.
Sob a geleira, a pressão se acumula à medida que o peso do gelo aprisiona água salgada em canais isolados do ar. Com o tempo, esse sistema não suporta a compressão e libera o líquido em pulsos repentinos. Pequenas mudanças na estrutura interna podem atrasar ou antecipar essas descargas, tornando-as difíceis de prever.
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“Cachoeira de sangue” revela o que está sob o gelo da Antártida
Outro fator essencial é o sal. Ele impede que a água congele, mesmo em temperaturas extremamente baixas, permitindo que o líquido permaneça em movimento por centenas ou até milhares de anos. Esse tipo de água, conhecido como salmoura, pode se concentrar ao longo do tempo devido a ciclos repetidos de congelamento.
A origem desses sais provavelmente está em depósitos minerais e rochas subterrâneas, oferecendo pistas importantes sobre o que existe sob a geleira Taylor.
O fenômeno não é novo. Exploradores já haviam registrado a coloração avermelhada em 1911, e a área segue protegida por regras ambientais rigorosas. Quando a água entra em contato com o ar, a mudança de cor ocorre em poucos minutos, facilitando a identificação de novos fluxos.
Equipamentos instalados próximos ao Lago Bonney também registraram mudanças durante o evento de 2018. Sensores térmicos detectaram queda de temperatura em profundidade, enquanto imagens mostraram a expansão da mancha vermelha ao longo dos dias.
Os dados indicam que a drenagem da salmoura reduz a pressão na base da geleira, fazendo com que o gelo pressione mais o solo rochoso e desacelere seu movimento. Em um dos registros, houve uma queda de cerca de 1,5 centímetro na superfície, acompanhada por uma redução de quase 10% na velocidade da geleira.
Além disso, o fenômeno afeta o ambiente ao redor. A entrada de salmoura no lago pode alterar a estratificação da água, camadas estáveis que normalmente não se misturam, e redistribuir nutrientes, impactando formas de vida adaptadas a condições extremas.
Mapeamentos recentes também revelaram que essa água salgada pode percorrer longas distâncias subterrâneas. Sensores aéreos identificaram caminhos de até 4,8 quilômetros sob o solo, enquanto radares mostraram canais internos dentro da própria geleira.
Mesmo em condições extremas, a vida encontra um caminho. Microrganismos presentes na salmoura sobrevivem sem oxigênio, utilizando reações químicas com ferro e enxofre como fonte de energia. Estima-se que esse ecossistema esteja isolado há até cinco milhões de anos.
Com essas descobertas, as Blood Falls deixam de ser vistas apenas como uma curiosidade visual e passam a ser interpretadas como um ponto de liberação de pressão que conecta gelo, rocha e água em um sistema dinâmico e ainda pouco compreendido.
Os cientistas agora planejam ampliar o monitoramento da região para entender se mudanças climáticas podem influenciar a frequência desses eventos e revelar ainda mais segredos escondidos sob o gelo antártico.
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